
Mestre Queiroz
Até poucos anos, um dos principais divertimentos nas cidades interioranas era as campanhas políticas, verdadeiros shows artísticos gratuitos (?) em praças públicas, que arrebanhavam multidões, atraídas muito mais pela fuzaca em si, que propriamente pelo comício ou ouvir os programas dos candidatos.
Salvo reminiscências dos nossos avós, da campanha de Getúlio Vargas com a marchinha "bote o retrato do velhinho na parede..." ou o "Varre, varre, vassourinha..." que, sob a promessa de varrer a corrupção, levou Jânio Quadros ao quadro presidencial, pode-se dizer que os jingles como estratégias de apresentação e promoção de políticos candidatos no Rio Grande do Norte, tomou corpo na campanha que levou Aluísio Alves ao palácio Potengi, com vários jingles inesquecíveis, dentre os quais o carro chefe " marchinha da esperança".
Entretanto, jamais um jingle marcou tanto uma campanha, ao ponto de incorporar-se ao personagem, virando uma marca pessoal, como o frevo "novos ventos, novos tempos", verdadeiro hino da campanha que levou Geraldo Melo ao governo do Estado no ano de 1986....
A melodia, feita sob encomenda, levava as multidões ao delírio, primeiramente pelo ritmo contagiante, bem como a criativa letra que prometia novos tempos, enchendo o povão de esperança.
Vejamos:
"Sopra um vento forte, no Rio Grande do Norte
Que transforma o tempo, que traz alegria
Tempo diferente que faz o meu povo
Sonhar de novo como há muito não se via
O vento forte, soprando emoção
Dessa gente descrente de tanto sofrer
Que agora encontra no Geraldo Melo
Nova esperança nesse seu viver...."
Pois bem, a campanha fervia a todo vapor....naquele domingo o comício era em santa Cruz/RN e milhares de eleitores de todas as faixas etárias aguardavam na praça Ezequiel Megerlino, o discurso do exímio orador Geraldo Melo, o homem do catavento...
Quando o mestre de cerimônia anunciou "atennnção, senhoras e senhores, moças bonitas, cidadãos de Santa Cruz e cidades circunvizinhas, vai falar, o seu, o meu, o nosso governador, Geraldo Melo; Faaaala, governadorrrrrr!...."
Geraldo Melo, matreiro na arte da oratória, microfone na mão esquerda, mão direita acenando, aguardou a música tema, cuja introdução era instrumental:
Pá, rá, rá pá pá
Pá, rá, rá pá pá
Pá, rá, rá pá pá
Pá, rá, rá pá pá
Foi justamente nesse momento de euforia com a multidão vibrando em delírio, que alguém com problemas intestinais, possivelmente acometido de um famoso "bucho inchado", talvez ocasionado pela ingestão de batata doce, cebola e ovo cozido há três dias, deixou escapar um flato, daqueles sem barulho, cujo odor fere as narinas de quem se encontra num raio de dezessete metros...
E o frevo rolando;
'Sopra um vento forte'...
A velhinha que, ao que parece, encontrava-se, por azar, imediatamente atrás do flatuador, pálida e ofegante com as mãos tapando o nariz, balbuciou alguma coisa, que, tendo em vista estar ao lado dela, consegui captar a sua frase, que, ipsis literes, foi:
--- eita, esse vento veio forte. demais...
Rancho Canaã, 30 de abril de 2023.
* Mestre Queiroz é aprendiz de escrevinhador.

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