domingo, 16 de abril de 2023

Um prefeito solidário

Mestre Queiroz

Manoel Severino Brilhante, vulgo "Dèdinho", já, por mim trazido a essa praça e apresentado à minha meia dúzia de cinco ou seis pacientes leitores desses parágrafos curtos, onde, aos domingos, trago à baila um causo verídimo (como diz Vivi), recuperado do meu HD cerebral, cujo armazenamento se deu em algum momento das minhas andanças como Extensionista Rural pelas plagas do Rio Grande do Norte.

Dedinho, como já aqui escrevinhado, foi pregador leigo, presidente de Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Vereador e Prefeito; todos os cargos, diga-se, exercidos na sua terra natal Campo Redondo/RN, onde a população  descendia de seus troncos familiares: Brilhante, Campelo, Pacheco, oliveira, Cosme, cesário e Vasco, que, via matrimonial, se entrelaçaram nos últimos dois séculos, povoando a "Serra do Doutor" , cuja toponimia originou o município de Campo Redondo, cidade serrana, acolhedora, a qual assisti, na primeira metade da era de 1980.

Chegando em Campo Redondo no início de 1981 fui recepcionado pelo prefeito Dedinho em seu gabinete, via repente improvisado, que, por ter também deter o dom da poesia, respondi na mesma moeda.

Como gosto de fazer o teste de paciência com meus leitores, para que haja uma melhor compreensão do caso, considero necessário apresentar ao interlocutor um arremado de cenário e as características básicas do protagonista; então, feitas as considerações, vamos ao caso propriamente dito.

Dedinho, que durante toda sua vida foi agricultor familiar, exercia também, outras profissões, tais quais, pedreiro, oleiro...

Como prefeito, Dedinho continuou com a simplicidade de sempre: tomava cachaça diariamente nos quiosques com seus amigos agricultores, os garis, os pescadores, os servidores do município e às vezes passava dias sem sentar à mesa de casa, entretido com a "assistência" aos munícipes, que o procuravam justamente no meio do povão, geralmente com uma dose de branquinha no copo e um repente na ponta da língua.

Dedinho nunca se preocupou com bens materiais: andava de sandálias havaianas, uma calça de mescla Santa Isabel e uma camisa cáqui. No seu mandato como prefeito, também não se preocupou com comodidade, muito menos angariou patrimônio e como era de se esperar, saiu da prefeitura mais pobre do que entrou...

No ano de 1986 o inverno foi fraco, as lavouras perderam-se, a safra foi quase Zero. Dedinho que não tinha renda fixa, lembrou-se que sabia "bater tijolos" e começou a penosa tarefa de confecção de tijolos, cujo sistema de produção é rudimentar e totalmente manual, começando pelo preparo do lastro, cavagem do barro, molhação, pisoteamento do barro enlamaçado, transporte, colocação na forma, viragem, desbarbamento, encairamento, corte de lenha, transporte da lenha e finalmente, queima.

Após dois meses de penoso trabalho, o oleiro finalmente conseguia disponibilizar o tijolo comum de barro cozido à venda, momento em que conseguia uma pequena renda equivalente a mais ou menos o valor da bolsa família atual. Lá estava o ex-prefeito Dedinho, na labuta para adquirir seu pão de cada dia enquanto chegaria a eleição para presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, onde reocuparia seu cargo de presidente.

Dedinho vivia em campanha permanente e almejando seu retorno ao Sindicato, continuou a fazer aquilo que sempre fez: ajudar o agricultor. Era muito normal encontrá-lo trabalhando como pedreiro na construção da casa de um agricultor, sem se preocupar com pagamento, apenas pelo prazer de ajudar.

Seis meses do término do seu mandato, numa quinta-feira, Dedinho, que estava dando uma demão na construção da casa do seu amigo Severiano Caatinga, viu parar uma camionete nova com placas de Currais Novos/RN, cujo motorista bem trajado, deu boa tarde ao servente que estava preparando um traço de barro para levar ao pedreiro que trabalhava trepado no andaime.

-- Cidadão, me informaram que o ex-prefeito desta cidade, chamado Dedinho está trabalhando de pedreiro aqui nessa casa. Sinceramente não acreditei nessa conversa. Rapaz, vim de longe para tirar essa conversa a limpo. Como é que pode o sujeito sair da prefeitura onde passou quatro anos como prefeito e ir ganhar uma diária de pedreiro? O ex-prefeito é ele? perguntou, apontando para Severino Caatinga, dono da casa, que também era pedreiro.

-- Não senhor; aquele é compadre Severino o dono da casa, que também é pedreiro dos bons.

--- Então, cadê o ex-prefeito que me informaram que está ganhando a vida como pedreiro...

-- Amigo, lhe informaram errado. O ex-prefeito sou eu. Apesar de ser ser pedreiro, hoje estou de servente. Sim, outra coisa: essa semana estou trabalhando de graça....

Rancho Canaã, 16 de abril de 2023.

Mestre Queiroz é aprendiz de escrevinhador



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